Arquivos | junho, 2012

A vez do pavão

28 jun

Por Walcyr Carrasco
Texto extraído de: http://vejasp.abril.com.br/noticias/a-vez-do-pavao

Muito se fala em perua. Pouco em pavão. Já encontrei feministas rebeladas contra o termo destinado às mulheres que trocaram a luta pelos direitos por um lugar no cabeleireiro, e a discussão sobre o uso de sutiãs por tratamentos de celulite. Entretanto, ninguém faz piada, e muito menos novela, com o pavão, a contrapartida masculina da perua. Não que eu seja um. Os anos escorrem sobre minha barriga. Além do mais, o pavão tem dinheiro. Pelo menos o suficiente para as academias de musculação. Ou o aluguel da quadra de tênis. Ou para se trancar num spa, se nada der certo. Se tem banhas, estão escondida sob um bem cortado paletó. (Uma vantagem sobre os pavões cariocas, que competem com os surfistas.) Fala manso, educado. Não usa aliança, de preferência. Também não é um mauricinho, preocupado apenas em parecer bem. O pavão abre a cauda, exagera, enquanto as peruas e outras aves canoras se agitam em torno. O pavão já nasce um, e tem talento para superar vicissitudes. O Washington Olivetto é assim. Trocou o perfil atlético pelas gravatas, e funciona. O Rodolfo Gamberini é outro: vence pelas olheiras.

Outro dia, tentei bancar o pavão. Fui ao Esplanada Grill na hora do almoço. É, como se sabe, o viveiro maior dos pavões paulistanos. Mas até o manobrista percebeu que eu não era um: pela caneta Bic pendurada na camisa. E pelo meu rodopiar na porta giratória.

Decidir tomar algumas lições. Afinal, se não estou mais na idade de me transformar num ás do jet-ski, pelo menos posso me pavonear um pouco. Ou não? Procurei um amigo, desses que nem precisam abrir a cauda para as peruas enlouquecerem.

— Encolha a barriga — aconselhou
— Não quer ser sexy?
— Sexy sim, mas não infeliz.

Recebi alguns ensinamentos. Pavões fingem não se interessar por peruas, mas por gatinhas. As peruas, açoitadas por paixões selvagens, se atiram sobre eles. Ou, pelo menos, enviam torpedos com o telefone. Eles bebem uísque, elas vodca. Gostam de cozinhar. Na verdade, fazem da culinária um chamariz.

— Mas e eu, que não sei fritar um ovo?
— Você é um ser anacrônico, um pterodáctilo.

Eu, um pterodáctilo? Pavão fala de cristais e da alta na bolsa. Conhece mais etiquetas de moda do que as próprias peruas. Gosta de fazer as unhas dos pés. Tem cabelos curtos, às vezes adornado por um tom grisalho. Foi a Nova York o ano passado. Faz compras em Miami. Em geral, são especializados em massas. Dedicam boa parte do tempo livre aos segredos do funghi seco e às artimanhas da Nova Era.

— Mas o que eu faço com esta pirâmide?
— Ponha no seu escritório. Sempre é bom para começar uma conversa. E dá boas vibrações.

Continuei com a lição, lúgubre. A lista dos complementos indispensáveis incluía um micro, em local visível, um mocassim, desses com franja de couro no topo, certo conhecimento de vinhos e…

— Pare com essa mania de coçar a orelha.

Retirei o dedo, humildemente. Meu amigo continuou com os conselhos:

— Quando andar, ponha o peito para a frente. A cabeça alta. Perca a mania de dobrar a barra da calça e nunca mais conte a ninguém que usa pivô.

Suspirei. Chegara a hora de exercitar meu charme inabalável, numa happy hour. Tentei andar com o peito estufado, quase entortei a coluna meu amigo não notou, estava entrando no viveiro, quer dizer, no bar, com a cauda exposta. Ouviram-se os inevitáveis gorgolejos: “Como vai? Há quanto tempo”.

Generosamente, ele virou-se em minha direção, disposto a me incluir no seleto círculo de peruas, muitas delas flamejantes executivas com pulseiras de ouro e sardas no colo dos seios. Não me achou. Fiquei num canto, crocitando, com uma bebida dietética. Pode haver algo menos sexy do que refrigerante dietético?

Voltei para casa, pensativo. Nunca chegarei a pavão. No máximo a um franguinho carijó, ou a um pombo gordo, o que é pior. Mas não trem importância. Um dia desses termina o reinado de peruas e pavões e chega a vez de gente como nós, simples mortais.

A Hospedeira

26 jun

Por Camila

Dia 29 de março de 2013 será a estreia mundial do filme A Hospedeira (The Host). O filme é a adaptação do último livro de Stephenie Meyer, a mesma autora da série Crepúsculo. Estou avisando com muita antecedência para vocês se programarem. Assim todo mundo pode ler o livro com calma para depois reclamarmos juntos o quanto a versão para o cinema avacalhou com os detalhes da história real.

O livro, assim como os outros da autora, é sensacional! No início demora um pouco para engatar, mas depois eu simplesmente não conseguia parar de ler. A história tem a mesma receita de bolo da versão dos vampiros: personagens jovens que não se encaixam nos padrões da sociedade, uma mocinha carrancuda e durona e um triângulo amoroso entre duas criaturas de raças diferentes. Mas assim, em time que está ganhando não se mexe, e o resultado ficou muito bom mais uma vez.

Fico imaginando que a autora deve mesmo enchergar o mundo dessa forma mágica, desbravadora e romântica. Então não poderíamos exigir dela outra combinação senão essa. Por exemplo, o que J.K Rowling irá escrever depois de tantos anos de Harry Potter?

Para quem quiser a autora disponibiliza um capítulo aqui: http://www.stepheniemeyer.com/pdf/thehost_chapter4.pdf

A Hospedeira : foto Max Irons, Saoirse Ronan

A história gira em torno de uma Terra dominada por um inimigo invisível, que controla as mentes e os corpos dos humanos. Melanie é uma das poucas que ainda não foi “dominada”. Mesmo infectada, resiste bravamente contra Peregrina, a “alma” invasora que tenta de todas as formas se hospedar em seu corpo. A missão de Peregrina é encontrar, nos pensamentos da jovem, o paradeiro dos últimos humanos não infectados. Melanie ocupa sua mente com visões do homem que ama para desviar a atenção de Peregrina, que passa a se sentir atraída por aquele sujeito.

Confira o elenco escolhido:

INSISTA

14 jun

Por Natalia Biteli

Um dos textos mais fantásticos que li nestes últimos tempos, de um escritor gaúcho chamado Fabrício Carpinejar, recomendação de um grande amigo meu…INSISTA e leia até o final.

Sempre insista. Fale mais do que seja possível pensar. Insista.
Temos que ter a capacidade de superar as resistências.
Toda primeira conversa enfrentará uma série de inconvenientes. Mas insista.
Não recue com a gafe, com o estardalhaço, com a vergonha. Siga adiante.
Comece a rir sozinha. Rir é receber a pergunta: o que você está rindo? Rir é ser perguntado.
Não há motivo para rir, rir é se abraçar. Minha risada é meu gemido público.
Acordar me deixa excitado.
Talvez aquela amiga não queira namorá-lo para não estragar a amizade.
Portanto, diga: quero hoje estragar nossa amizade. Estragar de jeito.
Arruinar nossa amizade. Corromper nossa amizade.
Estrague fundo, o amor pode estar recolhido nela.
Mas não aceite tão rápido o que ela não acredita. É disfarce, vivemos disfarçados de normalzinho, de ponderado, de retraído, porque a verdade quando surge faz atitudes impensadas,
como comer algodão-doce nesta terça-feira diante de uma escola de normalistas.
Que saudades de acenar para uma freira dirigindo um fusca.
Deus é uma freira dirigindo um fusca. Tenho saudades de me exibir cortando laranjas.
As tiras simétricas, os cabelos loiros da laranjeira.
Tenho saudade de passear com a minha laranjeira.
Não se explique, insista.
Eu não vou ficar esperando alguém me salvar. Eu mesmo me salvo.
Eu mesmo me arrumo para a loucura.
Insista. O apaixonado cria sua boca. Cria sua boca para cada boca.
Caso tenha prometido ir atrás dele, vá.
Telefone, ainda que atrasada dois anos da promessa.
Volte atrás, não queira pensar com os olhos, a boca são olhos mais atentos.
Não se intimide ao encontrar seu homem no momento errado. É sempre o momento errado.
Seja o momento errado da vida dele. Mas seja parte da vida dele.
Seja o erro mais contundente da vida dele. Seja a vida do seu erro, para ele errar mais seguido.
Talvez aquele amigo não converse para manter a aparência de misterioso.
Talvez ele nem saiba conversar, seja incompetente. Insista.
Uma hora ele vai tomar um porre do seu silêncio, sentar no meio-fio e falar aramaico.
Todo homem guardado uma hora fala aramaico.
Insista, esteja perto para o sermão dos pássaros no viaduto.
A vida mete medo quando ela não é formalidade,
não temos como nos defender do que parte dos dentes.
Tenha um medo assombroso da vida, que é mais justo,
deixe a morte com ciúme e inveja, deixe a morte sem dançar.
Não fique articulando frases inteligentes, comoventes, certas. Insista.
Sei o valor de uma fantasia, mas insista.
Tropeçar ainda é andar, pedir desculpa ainda é avançar, concentre-se na dispersão.
Ninguém quer falar com ninguém. Mas insista.
Na sala do dentista, no trem, no ônibus, no elevador. Insista.
O que mais precisamos é estranheza para reencontrar a intimidade.
Não há nada íntimo que não tenha sido estranho um dia.
Seja estranho com o ascensorista, com o porteiro do prédio, com a colega.
Declare-se apaixonado antecipadamente. Depois encontre um jeito de pagar.
Ame por empréstimo.
Ame devendo.
Ame falindo.
Mas não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito.
Sejamos mais reais em nossas dores.
Tudo o que não aconteceu é perfeito.
Dê chance para a imperfeição. Insista.
Estou cansado de me defender – sou só ataque.
Insisto.

(Fabrício Carpinejar)

Quando aprendi a dizer “foda-se” pra vida

5 jun

Por Cassiano S.

Nunca gostei de colocar palavrões em textos ou usar o termo “eu”. Me sentia desconfortável em saber que outros iam ter acesso à intimidade dos meus pensamentos. Até que um dia, resolvi dizer foda-se a tudo.

Foda-se meu chefe: pedi demissão, fiquei 6 meses sem fazer nada, sem procurar emprego, só gastando o que tanto guardei, afinal ia casar, precisava ter uma grana e quando vi, tudo deu errado e eu tinha dado um foda-se para minha ex-noiva. Pessoa da melhor qualidade, diga-se de passagem, mas que estava estranha, nem um pouco a fim de mim – em 6 anos muitas promessas podem mudar.

Mas nada que um foda-se bem dado não resolva.

Conheci gente bacana nesse tempo, pessoas pouco preocupadas se está amanhecendo e precisam trabalhar no dia seguinte. Gente que dizia foda-se à semana, ao trânsito, à acordar cedo, à dormir, ou a ir pra cama depois da novela. Inclusive, quando isso começou acontecer, também disse foda-se ao horário nobre da televisão: para quem está sem trabalhar, horário nobre é depois do almoço até a hora de cair na noite.

Fui viajar, passei o reveillon fora, sem perceber tinha dado foda-se a Rio-Santos entupida, a chuva tradicional e às areias fervilhantes (foda-se se essa palavra não existe).

Parei de pensar se iria conseguir pagar minhas contas. Foda-se se o dinheiro acabar. Foda-se se a vida está me dizendo não. Foda-se o mundo inteiro que insiste em girar, a correr, a se apressar, a não tolerar.

Aprendi que economizar água é uma grande besteira. Disse foda-se os ecochatos, afinal a água sempre volta para o solo, que é captada novamente, tratada e tcharannnn está em nossas torneiras outra vez. Aproveitei para ir na contra-mão e dar foda-se aos que acreditam que meu saquinho plástico fode o planeta. Aliás, se em 200 anos – que é o prazo para meu saquinho virar pó – não inventarem uma utilidade para esse saquinho, a ciência terá dado um foda-se para todos.

Hoje sou muito menos preocupado com os caminhos e descaminhos da vida. Aprendi a dar de ombros, a seguir adiante. Me importo menos com que os outros pensam sobre tudo. O que vale de verdade é o que sentimos e não as convenções que tanto atrapalham sorrisos sinceros, boêmios corajosos e dias alegres de verão.

Esse filme de novo?

1 jun

Por Natalia Biteli

Não sei quanto a vocês, mas quando eu gosto muito de um filme não consigo ver uma vez só. Desde pequena quando minha mãe me levava à locadora era sempre o mesmo filme: DUMBO. Podiam ter mil e um lançamentos, mas a minha opção era sempre a mesma, o filme do elefantinho que ficava na estante da esquerda onde meus curtos bracinhos conseguiam alcançar. Tentavam e tentavam me empurrar outros filmes, mas eu fazia questão de ver e rever o que eu considero hoje uma das piores histórias da Disney.

Com certeza devo ter puxado isso de alguém. Imagino que seja do meu pai, pois nunca conheci alguém que assistiu TITANIC tantas vezes na vida. Não entendo e nunca entendi o porquê de tanto amor pela história (de 3 horas e meia) do navio que afunda. Sério, toda vez que a TV insiste em transmitir esse looooooooonga metragem lá está o meu velho no sofá. E quem sou eu para julgá-lo? Tantas pessoas devem ter essa mesma paixão que resolveram dar uma segunda chance à linda história de Jack e Rose nas telonas e em versão 3D. Eu já não tive a mesma sorte com o Dumbo.

E a minha irmã então, pode ser a história dos vampiros 1, 2, 3 ou 700 que lá está ela assistindo, mesmo que seja só para ficar como som ambiente enquanto faz outras coisas. A sorte dela (e azar nosso) é que sempre tem um Telecine disponível para passar a história “magnífica” de Edward e Bella. E pode ter certeza que tem sempre alguém assistindo.

Quando a história é boa, quem não fica acordado até de madrugada para ver aquele finalzinho emocionante que você já sabe de cor e salteado? Se essas pessoas não existissem, a Globo talvez optasse por outro sucesso dos cinemas ao invés de “A Busca Implacável” pela centésima vez em 2012, que aliás eu devo ter visto todas.

Filme repetido é escolha fácil e satisfação garantida. É só sentar a bunda no sofá e aproveitar as 2 horinhas mais previsíveis do mundo. Você já conhece os personagens, o enredo e já tem certeza de como a história termina….tem preguiça melhor?

%d bloggers like this: